Descreva exatamente o que aconteceu quando saiu pela porta dos fundos para buscar suprimentos nas caixas.
Eu saí como sempre faço. Ouvi um barulho — como uma pedra caindo — ali perto do muro. Fui olhar... e é tudo o que me lembro. Acordei no arbusto, sem minhas roupas de serviço. Estavam geladas. Não sei quanto tempo fiquei ali.
Alguém a instruiu a ir até aquela área específica? Os guardas não a alertaram?
Os guardas ficam na porta, não nas laterais. Aquela área perto do muro é um ponto cego — sempre foi. A gente vai lá pegar coisas das caixas toda noite. Nunca ninguém disse que era perigoso.
Você foi designado como segurança reforçada na porta interna da cozinha. Um posto crítico. Então me explique como acabou desacordado dentro de um armário do hall de banho.
Uma serviçal veio correndo pelo corredor, em pânico total. Disse que tinha uma barata enorme na casa de banho. Parecia genuinamente apavorada — estava tremendo. Eu... eu fui verificar. Faz parte do serviço, não faz? Se algo está errado, eu checo.
Faz parte do seu serviço abandonar o posto de segurança reforçada por causa de uma barata.
Quando eu cheguei perto da porta do hall... meus olhos ficaram pesados. Como se o ar tivesse ficado denso. Tentei resistir — juro que tentei — mas meu corpo já não obedecia. Depois... alguém me agarrou pelo pescoço por trás. Não vi quem. Apaguei.
Você não reconheceu essa serviçal? Não achou estranho nunca tê-la visto antes?
Os Atlas têm muitos serviçais. Não conheço todos de rosto. Ela usava a roupa certa — uniforme branco, faixa na cintura. Parecia... legítima. A atuação era convincente demais.
Você era o único guarda cobrindo todo o perímetro externo da propriedade. Conte-me sobre a última coisa que se lembra antes de perder a consciência.
Estava fazendo minha ronda normal. Passei pelos fundos — nada fora do comum. Na volta seguinte, vi que a janela do banheiro estava com a cortina meio aberta, mas pensei que um serviçal tinha deixado assim. Continuei a ronda.
E depois?
Na passagem seguinte pelos fundos, ouvi algo — um farfalhar nos arbustos. Antes que eu pudesse reagir, algo me atingiu. Não vi de onde veio. Simplesmente... escureceu.
Em algum momento da noite, antes do ataque, você notou algo suspeito? Sombras, barulhos, qualquer coisa fora do padrão?
...Teve um momento, sim. Uma ou duas rondas antes. Ouvi um barulho — como alguém tropeçando — do lado dos fundos. Fui investigar com os outros guardas. Não achamos nada. Concluímos que era um animal. Deveria ter insistido mais.
Você comandava os três guardas da entrada principal. Em algum momento recebeu alerta dos fundos ou do guarda rondante?
Não, senhor. A noite estava tranquila na frente. Nenhum sinal dos fundos, nenhum pedido de reforço. O rondante deveria ter passado por nós a cada ciclo — quando ele não apareceu, assumi que estava demorando mais nos fundos por causa da movimentação de serviçais com a carga.
Quanto tempo até perceberem que algo estava errado?
Tempo demais. A verdade é que nosso sistema dependia do rondante como elo entre frente e fundos. Sem ele, éramos duas unidades cegas uma para a outra. Eles sabiam disso. Sabiam exatamente disso.
Quatro serviçais trabalhavam na cozinha na noite da invasão. Em algum momento vocês notaram que o guarda da porta foi substituído?
Guarda é guarda, senhor. Eles usam elmo, ficam de costas para a gente, não falam com a gente. A gente cozinha, eles vigiam. Não é nosso trabalho conferir quem está dentro da armadura.
E quanto à serviçal que cruzou a cozinha rumo à sala de jantar? Ninguém a reconheceu?
Ah, aquela? Parecia nova. Andava com pressa, cabeça baixa, carregando um pano. Achei que era reforço para o serviço noturno — com a movimentação especial de hoje, esperávamos mais gente. Ninguém ia parar o trabalho pra questionar.
Nós fazemos comida. A segurança não é nossa responsabilidade. Tínhamos um guarda justamente pra isso. Se ele era falso... bem, como eu ia saber?
Na noite anterior à invasão, os suspeitos estavam hospedados em sua estalagem. Notou algo incomum?
Eles são campeões do torneio, senhor. Metade da cidade quer beber com eles. Estavam na taverna como qualquer outro grupo de aventureiros — bebendo, conversando, descansando. Nada fora do comum.
E quanto à pomba mensageira que chegou ao estabelecimento?
Pomba? Era um corvo, senhor.
Pomba, corvo — não importa. O que importa é que o animal trazia um bilhete. A senhora leu o conteúdo?
Com todo respeito, senhor, importa sim. Pombas carregam mensagens de comércio. Corvos carregam mensagens de gente que não quer ser encontrada. Era um corvo. Preto, grande, olhos espertos. E não — não li bilhete nenhum. O bicho entrou, largou o papel na mesa e saiu voando. Não é da minha conta meter o nariz na correspondência dos hóspedes.
Soubemos que um dos suspeitos foi vítima de furto antes da invasão. Duzentos tíbaris e uma poção. Tinha algum conhecimento prévio de que isso poderia acontecer?
Eu sou estalajadeira, não vidente. Se soubesse prever crimes, estaria num cargo bem melhor que este. Ouvi falar do furto depois, mas não foi na minha taverna — e mesmo que fosse, não é como se ladrões avisassem com antecedência.
A invasão da Mansão Atlas não foi obra de oportunistas. Os responsáveis possuíam inteligência detalhada sobre rotas de guardas, pontos cegos, horários de serviçais e a política interna de restrição de guardas em áreas nobres.
A operação combinou engenharia social, magia de controle, combate especializado e infiltração coordenada — com ao menos cinco agentes atuando em sincronia.
A segurança "reforçada" foi circunnavegada sistematicamente: o ponto forte (porta interna da cozinha) foi eliminado por emboscada; o perímetro externo colapsou com a remoção de um único guarda rondante; e a concentração frontal nunca foi sequer testada.
Alguém de dentro forneceu a planta da casa e os detalhes de segurança. A investigação sobre a origem do corvo e seus contatos deve ser prioridade imediata.